Redação e Ideologia: Todos Querem Uma Para Viver?

Muito tem se falado sobre ideologia ou “viés ideológico” no Brasil, principalmente neste ano de eleições para o Executivo e o Legislativo, no qual foram e ainda estão sendo debatidos (e a discussão não cessará tão cedo) sobre projetos como Escola sem Partido e termos como “ideologia de gênero“. Tal debate chegou, inclusive, até a edição 2018 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que fora acusado de “doutrinação ideológica” por algumas pessoas e por alguns setores da sociedade. Mas, afinal, o que é “ideologia“?

De acordo com o Houaiss Dicionário da Língua Portuguesa, “ideologia” é um substantivo feminino que significa:

  1. ciência das ideias;
  2. conjunto de ideias, crenças, tradições, princípios e mitos, sustentados por um indivíduo ou grupo social, de uma época, de uma sociedade (ideológico – adjetivo).

Nesse contexto, é importante ressaltar que a acepção do verbete no dicionário Houaiss coloca como “ideologia” sendo um conjunto de ideias, crenças, tradições e princípios gerais defendidos por um indivíduo ou grupo social, ou seja, este significa não determinada quais são essas ideias, crenças, tradições e princípios, pois a palavra “ideologia” se refere a todas e quaisquer ideias, crenças, tradições e todos os princípios sustentados por um indivíduo ou grupo social.

Deste modo, podemos inferir que todos nós, individualmente, e todos os grupos sociais – sejam estes organizados em torno de qualquer propósito – possuímos (já que quase todos os indivíduos se organizam em grupos sociais) ideias, crenças, tradições e princípios, no plural. Resumindo: todos nós temos as nossas ideologias, também no plural.

Neste sentido, também podemos inferir que não há pessoa ou grupo social no mundo que não tenha suas ideologias (sempre no plural) e, portanto, podemos concluir que não há neutralidade no campo das ideias. Podemos pensar que somos neutros em relação a determinado assunto, mas pensar assim já é um ato ideológico, isto é, já é uma ideologia, pois é uma ideia.

E é justamente isso que, inclusive, diferencia a espécie humana das demais espécies existentes: a capacidade de ter ideias baseadas no raciocínio e não apenas no instinto. E é por isso que as pessoas mudam de ideia, justamente porque têm a capacidade de pensar de novo, de raciocinar e de refletir acerca de tudo e de todos.

Nossa capacidade de raciocinar e de refletir tem como resultado o nosso juízo de valores acerca de tudo o que nos cerca, inclusive pessoas com as quais convivemos. E este processo acontece a todo o momento, às vezes mesmo que nós percebamos (e aí entram os estudos de Psicanálise de Freud, por exemplo, sobre o que ocorre no nosso subconsciente e no nosso consciente).

Quando conhecemos alguém, por exemplo, avaliamos (uns mais, outros menos) a aparência física, o humor, as roupas, o jeito de falar, dentre outros aspectos de uma pessoa. Quando lemos um artigo opinativo no jornal, quando lemos uma reportagem em uma revista, quando lemos um livro, quando ouvimos uma música, assistimos a um filme, vemos um show, lemos uma coluna de redação como essa etc. emitimos juízo de valor sobre o que lemos, ouvimos e vimos: podemos discordar, concordar, apontar ambos os pontos, gostar, não gostar, repudiar, questionar, problematizar ou simplesmente esquecer. E todo esse processo acontece porque somos capazes de termos um conjunto de ideias (ideologias) sobre tudo e todos que nos cercam.

E como ideologias se referem à ciência das ideias, também no plural, há ideologias em todas as esferas de atuação humana, como por exemplo, as esferas política, científica, religiosa, jornalística, escolar, familiar, íntima, literária, acadêmica, econômica, histórica, sociológica etc., dentre inúmeras outras. E, inseridas em cada uma das esferas de atuação humana, estão diversas ideologias.

Uma pessoa vegetariana, que não come nenhuma proteína de origem animal, tem uma ideologia. Uma pessoa vegana, que não consome nenhum produto de origem animal (comida, cosméticos, roupas, produtos de limpeza, calçados etc.) tem uma ideologia. Já uma pessoa que come carnes em geral tem outra ideologia.

Uma pessoa que se posiciona, na política, à direita, liberal, neoliberal ou capitalista na economia, por exemplo, tem ideologias diferentes de alguém que se posiciona à esquerda, mas todas são ideologias. Deste modo, na política e na economia como esferas, como um todo, há ideologias e não apenas “viés ideológico”, pois tudo é ideologia.

Um católico tem sua ideologia. Um evangélico tem a sua. Um espírita tem a sua, a de acreditar na reencarnação, por exemplo. E isso ocorre em todas as religiões, com pontos que concordam e pontos que discordam. Um agnóstico e um ateu, por sua vez, também têm ideologias.

Uma pessoa favorável à descriminalização do aborto, por exemplo, tem uma ideologia; já a pessoa contrária ao tema tem outra ideologia, amparada, geralmente, em ideologias religiosas, sustentadas pelo grupo social de sua religião.

O mesmo ocorre com quantos outros inúmeros e inesgotáveis temas sobre os quais as sociedades, no mundo, discutem. E esta discussão, este debate, deve ser consciente de que tudo o que pensamos, dizemos e fazemos é ideológico. Não há neutralidade. Não há opinião neutra. Podemos não ter uma opinião formada inteiramente, podemos ter dúvidas e questionamentos acerca de diversos temas (e para isso temos de estudar, pesquisar, ler, ouvir e ver posicionamentos diferentes), mas nunca fomos ou seremos indivíduos neutros.

As nossas opiniões são expressas, inclusive, nas palavras que escolhemos. Como não há neutralidade, as palavras também possuem carga ideológica e devemos prestar muita atenção quanto a escolha do léxico (até numa redação do Enem, por exemplo). Por isso algumas palavras não são mais usadas, pois expressam preconceitos e conceitos ultrapassados (inclusive pela ciência), por exemplo, e temos de refletir sobre isso.

Aliás, há modos e modos de se dizer a mesmíssima coisa. Dependendo da nossa intenção, mudamos o tom de voz, a postura corporal, o vocabulário etc.

Tudo o que pensamos é formado por o que vemos, ouvimos, lemos e sentimos desde a nossa primeira infância – há quem diga que desde o útero, já que os bebês podem ouvir e sentir dentro das mães – , mas não precisamos ou devemos pensar e sentir como nossos pais, parentes, professores, amigos, vizinhos, colegas de trabalho etc. Devemos pensar e sentir como nós mesmos e como os grupos sociais com os quais nos identificamos. Caso não haja identificação com muitos, também não há problemas.

Então é equivocado pensar que a posição com a qual discordamos tem “viés ideológico” porque o que pensamos também é ideologia; apenas não há concordância. Como algumas pessoas têm colocado, tudo o que é considerado ruim para elas tem “viés ideológico”, quando essa opinião, inclusive, é ideológica.

Em propostas de redação que exigem a escrita de uma dissertação-argumentativa, esta percepção sobre ideologias é fundamental, até porque o candidato deve saber defender e sustentar muito bem a sua tese em argumentos sólidos.

E aí, qual é seu juízo de valor sobre esse texto? Aposto que você, durante a leitura e ao final dela, expressou opiniões acerca dele. Você concorda? Legal! Você discorda? Sem problemas, mas por quê? Queremos saber seu ponto de vista! Ficou com alguma dúvida? Normal! Qual é? Deixe sua opinião nos comentários abaixo!

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada em Letras/Português e mestra em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas e do Curso Online do infoEnem. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

 
**Camila é colunista semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas as quintas!

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3 Comentários

Osmar

Parabéns pelo texto. Realmente a ideologia é comum a todos, ao mesmo tempo singular a cada um ( pessoa ou grupo). Pensar sobre esse tema é estarmos atentos a possíveis alienações fundamentalistas de modo a evita-la ( se é que isso seja possível).

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Andrés Pimentel

Discordo do seu texto. Mas porque? Por que você começa apresentando um viés ideológico e não um texto discursivo, mas sim um texto tendencioso. Vejamos. Você diz que nós temos juízos de valor e isso é uma verdade e que não podemos ser neutrais. Nesse caso, me parece que você já coloca as dicas para definir sua ideologia ou viés ideológico. Começa relatando dos problemas que já causaram dilemas como Escola Sem Partido e a ideologia de gênero e inclusive fala do problema esse dos textos do último Enem 2018, de claro viés ideológico. Ou você não viu algumas das perguntas dessa prova, favoráveis à ideologia de gênero? Os textos em si eram textos que nada tinham a ver com a realidade geral da sociedade, mas eram textos favorável a um determinado setor da sociedade, como querendo impor os interesses desses setor à maioria da sociedade brasileira. Eram textos evidentemente tendenciosos, de marcado viés identitário, ideológico. Porque não começou falando do conceito e a estrutura da palavra “ideologia” e se resolvia o problema num instante? Continuo a dizer que você estava certa quando diz: “Não há neutralidade. Não há opinião neutra.” Por isso que a tendência é evidente, ficou muito clara. E você segue tocando temas que são “polêmicos” mesmo e que precisam sim de uma opinião. Mas precisam de uma opinião e não de serem impostos a coletividade em geral. Me parece que ate existe um desespero no seu texto tentando ganhar opinião favorável a essa ideologia. Daí passa a definir ideologias que estão “de moda” nos grupos de orientação esquerdista e como não querendo bater mais na tecla, menciona as outras ideologias diferentes. Sim, diferentes. Mas incômodos. Existe uma concordância sim no seu texto. O viés é evidente e não tem como negar as dicas, melhor dizendo, dos fatos tendenciosos que você nós apresenta. Contra fatos não há argumentos.

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CAMILA DALLA POZZA PEREIRA

> André, obrigada pelo comentário!
A respeito da questão do Enem 2018 citada por você, escrevi um artigo sobre a mesma há duas semanas. Você está convidado a lê-lo e a comentá-lo e minha opinião, obviamente baseada nas ideologias em que eu acredito, estão lá, assim como estão nesse texto. Não vi só as questões do Enem como escrevi sobre a “polêmica”.
Tenho minhas ideologias sim, que acumulei ao longo de anos de estudo e pesquisa, mas discordo de você: não fui tendenciosa. Não julguei nenhuma ideologia como certa ou errada, não afirmei que as minhas ideologias (nem as disse quais são, aliás; apenas exemplifiquei) são as únicas corretas. Ser tendencioso é outra coisa.
Também não tentei impor nada a ninguém. Apenas expliquei, da maneira mais didática possível para o perfil de leitores deste portal, o que a Análise do Discurso e a Linguística Aplicada, dentre outras ciências da linguagem, tratam por ideologias.
O seu comentário tem ideologias; o meu texto também. Era basicamente o que a minha publicação quis expressar.

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