Escola Sem Partido X Enem – Reflexão e Discussão

Na última publicação, a coluna semanal da redação do Enem do Portal infoEnem abordou o projeto de lei Escola Sem Partido como um possível tema de propostas de redação não só do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como de demais vestibulares. Neste contexto, pensamos ser importante e relevante continuarmos esse assunto, mas agora abordando, de uma maneira mais detalhada, o que o Escola Sem Partido afirma em relação à prova de produção textual do Enem.

Em decorrência da proposta de redação do Enem 2015 – “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” – o Escola Sem Partido publicou em sua página na internet, no dia 31 de outubro de 2015, um texto intitulado “Boi de piranha do ENEM“.

A discussão levantada pelo texto do Escola Sem Partido, na verdade, não é nenhuma novidade para a maioria dos professores de redação. Trata-se da questão da liberdade de opinião do candidato ao escrever uma dissertação-argumentativa versus a grade de correção da prova que, no caso específico do ENEM, exige respeito aos direitos humanos na elaboração da proposta de intervenção social.

Para o Escola Sem Partido, neste caso, o candidato deve escrever não o que realmente pensa, mas o que o vestibular e/ou o Enem querem ler, já que pode ser punido caso desrespeite os direitos humanos, a cidade, a multiplicidade e diversidade cultural etc. Ou seja, segundo essa linha de raciocínio, estaria havendo controle de pensamento nas provas de redação Brasil afora.

Outro agravante, de acordo com o Escola Sem Partido, é que

os candidatos e os corretores das provas não estão familiarizados com a legislação brasileira sobre direitos humanos ‒ o que de resto não é exigido pelo INEP. Assim, o mais provável é que todos considerem como “direitos humanos” um punhado de clichês politicamente corretos consagrados na academia e nos meios de comunicação. É o que sugere aliás o INEP, ao falar vagamente em “cidadania, solidariedade e diversidade cultural”, expressões que remetem de forma inequívoca ao discurso da esquerda (Disponível em http://www.escolasempartido.org/vestibular-categoria/564-o-boi-de-piranha-do-enem).

Uma ação foi impetrada na Justiça na qual uma proposta de mudança na prova de redação do Enem foi sugerida: a retirada da obrigatoriedade de o candidato apresentar uma proposta de intervenção social que respeite os direitos humanos. Tal ação foi indeferida pela Justiça, isto é, foi negada e, segundo o ministro da educação do governo interino, Mendonça Filho, em entrevista ao portal de notícias G1,

As redações ou qualquer avaliação realizada pelo poder público devem garantir o princípio da liberdade, da amplitude de ideias, do direito à opinião, sem tendência tutela ideológica para um lado ou outro.

Como os temas propostos pelas provas de redação do Enem são atuais, de cunho social e situadas no contexto brasileiro, é coerente, ao nosso ver, a banca de elaboração exigir a elaboração de uma proposta de intervenção social de um candidato que deve se mostrar proativo, consciente de seu papel de cidadão e com senso crítico do que é possível ou não fazer. Ou seja, a quinta competência tem relação com o perfil do candidato que o Enem almeja.

A questão está centrada, de fato, na correção de dissertações-argumentativas que trazem como proposta de intervenção social algum elemento que desrespeite os direitos humanos. Como respeitar a liberdade de expressão de um candidato sob este ponto de vista?

Discursos de ódio, como os favoráveis ou os que relativizam violências e preconceitos, por exemplo, na nossa opinião, não podem ser acobertados pela liberdade de expressão, pois devem ser combatidos com o intuito de serem exterminados por meio da educação e da conscientização. Discursos de ódio que deram origens a guerras, genocídios, ao Holocausto…

Pensamos que é isso que o Enem procura fazer ao exigir que os candidatos respeitem os direitos humanos: fazer com que eles se conscientizem.

E você, leitor, o que pensa?

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

 
**Camila é colunista semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas as quintas!

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Comentários

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