Neologismos e processos de formação de palavras

– De onde veio o verbo bugar? – perguntou o “Joãozinho”.

Essa foi a pergunta de um aluninho curioso a qual deu origem a uma aula sobre processos de formação de palavras, em uma de minhas turmas. A aula seguiu a partir da apresentação de um dos mais férteis processos de criação de palavras na língua portuguesa: a derivação.

Chamamos de derivação o processo de formação de palavras, criadas a partir de um radical. Ela pode ser:

  • Prefixal: acrescenta-se um prefixo (um ‘pedacinho’ que carrega um significado e que vai ‘grudado’ no início da palavra), de forma que se acrescenta mais uma informação ao termo original.
    Ex: normal > anormal (acrescentou-se a ideia de negação com o prefixo a-)
  • Sufixal: acrescenta-se um sufixo (um afixo que vai ser ‘grudado’ no final do radical da palavra original, às vezes com a colocação de uma vogal ou uma consoante de ligação, para ‘dar liga’, para a junção ficar mais harmônica ou para uma acomodação fonética), geralmente para criar uma palavra de outra classe, embora da mesma família.
    Ex: normal (adjetivo) > normalidade (substantivo abstrato; (i)dade é um dos sufixos de criação de substantivos e o -i- é uma vogal de ligação)
  • Parassintética: acrescenta-se um prefixo e um sufixo simultaneamente a um radical. Geralmente são criados verbos (no infinitivo ou no particípio, funcionando como adjetivos).
    Ex: maduro > amadurecer
    Alma > desalmado
    Atenção: se a palavra existir apenas com o prefixo ou só com o sufixo, não é parassíntese, mas derivação prefixal e sufixal, como em anormalidade (existe anormal e normalidade, isoladamente).
  • Regressiva: neste caso não há acréscimo, mas um ‘encolhimento’ do termo original, na criação de um substantivo abstrato a partir de um verbo.
    Ex: comprar (verbo) > a compra (substantivo)
    Perder (verbo) > a perda (substantivo)
    Cuidado!!! “Perca” é a forma conjugada no presente do subjuntivo!!!
  • Imprópria: aqui também não há acréscimo, a palavra sequer muda de aparência, apenas muda de classe gramatical. É o processo que também chamamos de substantivação.
    Ex: velho (adjetivo) > o velho (substantivo)

No caso do termo bugar, ocorreu uma derivação sufixal a partir do estrangeirismo bug, termo inglês que originalmente significa ‘inseto’, mas que, por metonímia na língua inglesa, passou a significar problemas em computadores (era comum que insetos entrassem nos circuitos e os danificassem, o que causava mau funcionamento). Entrou com esse significado da informática no português e agora, coloquialmente, indica que algo não funciona como deveria (não apenas na informática).

Os termos novos são resultado da criatividade humana nos vários campos do conhecimento. Os neologismos criados no setor artístico, científico e tecnológico têm o objetivo de oferecer novos conceitos dentro dessas áreas e acompanhar a evolução humana. Mas também apresentam o jeito criativo e bem-humorado de usar a linguagem.

A Universidade Federal de Goiás, num de seus exames vestibulares apresentou aos candidatos a seguinte questão:

“Encontra-se escrito em um dos muros de Goiânia o seguinte grafite ‘I love you como ninguém loveu’. Da forma como está grafado o termo loveu não pertence à estrutura da língua inglesa e nem à da portuguesa. Explique então através de que mecanismo essa construção se tornou possível.”

Era esperado que os candidatos respondessem que houve um processo de derivação sufixal a partir do verbo inglês, com acréscimo do ‘-r’, marca dos verbos no infinitivo, e então o verbo ‘lover’ foi conjugado, com acréscimo das desinências modo-temporal e número-pessoal (pretérito perfeito do indicativo e 3ª pessoa do singular ‘-eu’).

Até a próxima semana!


Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), instituição na qual também concluiu seu mestrado. Com mais de 20 anos de experiência e responsável pela resolução das Apostila de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias do infoEnem, a professora também é colunista de gramática do nosso Portal e umas das corretoras do curso de redação online (clique aqui para saber mais). Seus artigos são publicados semanalmente, sempre aos domingos. Não perca!

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2 Comentários

Siglas e Processo de Formação de Palavras • infoEnem | infoEnem

[…] Passemos agora à observação a partir do segundo referencial: quando as siglas são formadas por mais letras e combinadas de tal forma que formam sílabas e podem se lidas como uma palavra. A Morfologia é a parte da Gramática que estuda a estrutura e a formação das palavras e a sigla, deste ponto de vista, é entendida como um dos processos de criação de palavras em português, ao lado da composição, da derivação e de outros processos (relembre aqui alguns processos) […]

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Elinaldo Tomaz de Sousa

Excelente os esclarecimentos sobre neologismos, partindo de “bugar”. Mas o que é mesmo “bugar” nas possíveis acepções que venha a comportar?

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