Redação no ENEM 2017: “Diga Não à Decoreba!”

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), desde a sua criação em 1998, é um exame muito importante para a educação brasileira. Porém, com as mudanças ocorridas em 2009, este passou a ser considerado um verdadeiro vestibular de proporções nacionais, já que por meio dele os participantes podem ingressar em universidades federais de todo o país. Deste modo, como exame de entrada, o impacto do ENEM no ensino e na sociedade brasileira é de alta relevância, pois demandas específicas começaram a surgir, já que milhões de pessoas prestam o ENEM todos os anos.

Assim, surgiram curso preparatórios especializados, materiais didáticos dedicados exclusivamente ao exame, dentre outras coisas, mas isso já acontecia anteriormente, com os vestibulares próprios das universidades públicas de todos os estados brasileiros, e assim também aconteceu com o ENEM, mas em maiores proporções. Neste contexto, nós, o Portal infoEnem, também surgimos e não podemos negar que somos um impacto do exame na sociedade.

Assim como nós, vários portais na internet se dedicam ao ENEM de diversas maneiras: portais de notícias mantém cadernos de educação que abordam o exame, especialistas escrevem sobre as provas de todas as disciplinas, há bancos de redação corrigidas etc. Já com a popularização do Youtube e com a facilidade de se gravar vídeos hoje em dia, temos acesso a inúmeros vídeos que abordam o ENEM sob diversos aspectos, vídeos estes gravados e publicados por pessoas de diferentes regiões do país, de idades distintas e de profissões diversas.

Em canais de todos os tipos podemos assistir a vídeos com dicas para o ENEM, principalmente para a prova de redação, e alguns vídeos preocupam professores e pesquisadores de avaliação de todo o Brasil porque têm como autores adolescentes, ou seja, estudantes que são participantes do ENEM e que ainda não entraram no ensino superior ou adultos, mas que não trabalham como professores. E, para piorar este cenário, estas pessoas propagam receitas prontas, fórmulas mágicas e incentivam a “decoreba” para se fazer uma redação nota mil no ENEM.

Tais vídeos fazem muito sucesso, não se pode negar, já que alguns têm milhares de visualizações, mas eles fazem, na verdade, um desserviço para os participantes do exame que, ao assistirem, não estão realmente estudando e sim absorvendo dicas que orientam para a “decoreba” sem reflexão.

Podemos citar como exemplo títulos de vídeos como “50 citações filosóficas para a redação do ENEM” que cita, realmente, cinquenta frases de efeito, não só da Filosofia, para o participante inserir na sua redação, mas sem nenhuma reflexão sobre se alguma dessas cinquenta citações é pertinente para o tema da proposta de redação. Desta maneira, do modo como tal conteúdo é abordado, a impressão que o vídeo passa é a de que não importa qual tema ou qual recorte temático é proposto pela prova de redação do ENEM, pois qualquer uma destas cinquenta citações se encaixa perfeitamente no seu texto, o que não é verdade.

Outros exemplos são vídeos que mostram modelos de redação nota mil, dicas para decorar e memorizar conteúdos, resumos, comentários sobre a correção das redações dos próprios autores, questionando ou criticando suas notas no ENEM etc.

Conteúdos como estes, que incentivam a “decoreba” e a memorização e que não se preocupam com coesão, coerência, unidade e progressão textual, dentre outros aspectos, são um verdadeiro desserviço, ainda mais quando são publicados e propagados por estudantes participantes do exame.

As consequências deste fenômeno são várias e de aspecto negativo, como aquela redação analisada por esta coluna há algum tempo que foi anulada (veja aqui), pois fazia citações literárias do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, para escrever sobre os caminhos para se combater a intolerância religiosa no Brasil. De certo, o autor deste texto pensou que fazendo tal alusão pontuaria na segunda competência e teria uma boa nota de maneira geral; ledo engano.

Deste modo, gostaríamos de frisar que de nada adianta decorar e/ou memorizar citações, alusões, exemplos ou ficar copiando, ao longo do ano, modelos de redações nota máxima para se criar, justamente, um molde de escrita e de abordagem, pois tudo dependerá do tema proposto e do recorte temático dado pela proposta de redação do ENEM. Já frisamos em outras ocasiões, nesta coluna, que não existem receitas prontas ou fórmulas mágicas para se obter nota mil na prova de redação do ENEM ou de qualquer outro exame ou vestibular.

Ao invés de perder tempo tentando decorar ou memorizar citações e alusões, é necessário ocupar o tempo lendo jornais, revistas, livros, se informando em portais de notícias de credibilidade e escrevendo, se preocupando em redigir um texto coerente, coeso, com progressão temática e textual e de acordo com a norma culta da Língua Portuguesa.

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

 
**Camila é colunista semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas as quintas!

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4 Comentários

Luryan

A redação da menina foi anulada pelo Inep/MEC?

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Jonas

Concordo com o comentário anterior.De fato a decoreba invalida todo esforço único de um indivíduo em elaborar uma produção textual digna de notas máximas,porém um ponto a ser levado em consideração é que justamente quem segue modelos prontos tira notas boas na redação.O ENEM se auto prejudica dessa forma.E quanto mais redações nota mil que sigam tais padrões forem surgindo,mais ainda o próprio exame se enterra.O problema não é a da sociedade que cria macetes para driblar a correção da redação,e sim do próprio exame que é falho,não só nas outras frentes didáticas,mas também na redação.E pensar que tudo isso acontece em prol de uma vaga o ensino superior!

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makary

Concordo com o texto, mas não é o que vemos na prática, a cada vejo mais e mais redações que tiram 920 a 980 trechos decorados, colocam Descartes, Paulo Freire ou Aristóteles em situações que não se encaixam, mesmo assim acabam recebendo notas altíssimas, quem perde é quem tenta fazer uma redação mais elaborada, porque no enem nunca foi uma prova de conhecimento e sim uma maratona de resistência.

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