Pleonasmo: afinal, ele é sempre proibido?

“Deixa eu entrar dentro do seu coração
Descobrir pouco a pouco a paixão(…)”
(https://www.vagalume.com.br/avenida-brasil-novela/voce-de-mim-nao-sai-luan-santana.html )

O que é imortal
Não morre no final

E se distante é assim…
Isso não vai ter fim”
(https://www.vagalume.com.br/sandy-junior/imortal.html )

Esses dois casos de combinação de palavras nos versos das músicas apresentam uma redundância, um excesso de palavras, já que a ideia de um dos termos já está contida no outro. Nesse caso, temos a ocorrência do pleonasmo vicioso que, segundo o gramático Celso Cunha, é uma “superabundância de palavras para enunciar uma ideia.”

Essa superabundância, porém, pode ser empregada sem problemas, por exemplo, em narrações nas quais a intenção é reproduzir o mais fielmente possível a fala de uma personagem que seja caracterizada por não saber a norma culta, alguém de pouca escolaridade ou de baixa condição social, o que refletiria no modo de se expressar. Vejamos o exemplo:

“– Entra pra dentro, Carlinhos.” (REGO, J. L. Menino do Engenho)

Há também os ‘excessos líricos’ (definição minha!), as redundâncias criadas com a intenção de realçar, de destacar uma ideia. Esses são os pleonasmos considerados figuras de linguagem. Vejamos os casos abaixo:

“Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã”
(https://www.vagalume.com.br/chico-buarque/cotidiano.html )

Temos um sorriso que não é um qualquer, um simples sorriso, mas tem a característica de ser pontual. Nesse caso, deixou de ser uma repetição vazia, desnecessária. O mesmo acontece nos casos abaixo:

“Bandeira branca, amor / Não posso mais
Pela saudade que me invade / Eu peço paz
Saudade mal de amor, de amor / Saudade
Dor que dói demais / Vem meu amor
Bandeira branca / Eu peço paz”
(https://www.vagalume.com.br/dalva-de-oliveira/bandeira-branca.html )

Outra situação que não é considerada vício de linguagem é a dos epítetos da natureza. Segundo Celso Cunha, expressões como céu azul, mar salgado, prado verde não apresentam reiteração viciosa. Nelas o “adjetivo insiste sobre o caráter intrínseco, normal ou dominante do objeto. É uma forma de ênfase, um recurso literário.”1 Vejamos alguns casos na poesia e na MPB:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!” (Fernando Pessoa)

“(…) Pois diga que irá
Irajá, Irajá
Pra onde eu só veja você
Você veja a mim só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, Céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao teu corpo nu(…)”
(https://www.vagalume.com.br/gilberto-gil/vamos-fugir.html )

Assim, reflitamos: é necessário repetir a ideia? Vai criar um determinado efeito estético ou de sentido quando lido o texto? Ou o trecho poderia ficar mais conciso e objetivo sem a repetição? Use esse raciocínio para decidir se mantém ou não uma determinada construção.

Até a próxima semana!


1 CUNHA, C; CINTRA Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d)


Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 20 anos de experiência, corretora do nosso Curso de Redação Online (CLIQUE AQUI para saber mais) e responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoEnem, a professora é colunista de gramática do nosso portal. Seus textos são publicados todos os domingos. Não perca!

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