Uniformidade das pessoas gramaticais: norma culta X norma coloquial

Uma das muitas diferenças entre a variante da Língua Portuguesa empregada no Brasil e a usada pelos lusitanos é a substituição do pronome pessoal tu pelo de tratamento você, em várias das nossas regiões.

Não há problemas de obediência à norma padrão nessa substituição, porém precisamos ter em mente que o pronome ‘tu’ é a 2ª pessoa, já o ‘você’, pronome de tratamento, é 3ª pessoa (assim como todos os demais pronomes dessa classe). Essa diferença de pessoas gramaticais tem decorrência em outros aspectos na construção dos textos: a concordância nominal e a verbal.

É muito comum, na língua falada, nas situações de pouca formalidade, a mistura de 2ª e 3ª pessoas, como ocorre na música “Sutilmente”, do Skank:

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce…
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate (não)
Dentro de ti
Dentro de ti
https://www.vagalume.com.br/skank/sutilmente.html

Na letra dessa linda canção, podemos ver os verbos conjugados no Imperativo (abrace, afaste, disfarce, não me mate), na 3ª pessoa, dirigindo-se a um(a) interlocutor(a) que é tratado(a) por você, porém, no final, há uma troca e surge a 2ª pessoa, na forma do pronome pessoal ti.

Já na canção “Beija eu”, gravada por Marisa Monte, isso se inverte: as formas verbais no Imperativo estão na 2ª pessoa (deixa (tu), aceita, deita…), mas os pronomes possessivos são de 3ª pessoa (seu).

Seja eu,
Seja eu,
Deixa que eu seja eu.
E aceita
O que seja seu.
Então deita e aceita eu.

Molha eu,
Seca eu,
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu.
Anoiteça e amanheça eu.
https://www.vagalume.com.br/marisa-monte/beija-eu.html

Há ainda outra ‘licença poética’ quando aparece o pronome pessoal do caso reto eu como complemento dos verbos (beija eu, molha eu…). Em uma entrevista, Arnaldo Antunes, o autor da letra, disse que fez esse uso, como referência ao filho, que falava assim quando pequeno.

Sabemos que o Enem não cobra questões puramente gramaticais, mas o tema variantes linguísticas sempre esteve presente nas provas nos últimos anos, então, mesmo que não se cobre a explicação gramatical, os alunos precisarão identificar o uso da variante culta em oposição à variante coloquial ou informal.

E por falar em cobrar, o ITA cobrou, em uma questão, a música Cobra, da Rita Lee, na qual aparece exatamente essa mistura de formas de 2ª e 3ª pessoas, num jogo linguístico entre a expressão ‘não cobre’ (imperativo negativo, 3ªp.s), cobra (imperativo afirmativo, 2ª p.s) e serpente (sinônimo do substantivo cobra).

(ITA) Os versos abaixo são da letra da música “Cobra”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho:

Não me cobre ser existente
Cobra de mim que sou serpente

Com relação ao emprego do imperativo nos versos, podemos afirmar que:
a) a oposição imperativo negativo e imperativo afirmativo justifica a mudança do verbo cobre/cobra.
b) a diferença de formas (cobre/cobra) não é registrada nas gramáticas normativas, portanto há inadequação na flexão do segundo verbo (cobra).
c) a diferença de formas (cobre/cobra) deve-se ao deslocamento da 3ª para a 2ª pessoa do sujeito verbal.
d) o sujeito verbal (3ª pessoa) mantém-se o mesmo, portanto o emprego está adequado.
e) o primeiro verbo no imperativo negativo opõe-se ao segundo verbo que se encontra no presente do indicativo.

E se você pensou na alternativa C como resposta, acertou!

É isso!


Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 20 anos de experiência, corretora do nosso Curso de Redação Online (CLIQUE AQUI para saber mais) e responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoEnem, a professora é colunista de gramática do nosso portal. Seus textos são publicados todos os domingos. Não perca!

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