Travessão ou aspas: qual o mais adequado?

Todo texto, seja narrativo ou dissertativo, tem uma ou mais vozes se manifestando nele. Isso quer dizer que há sempre alguém apresentando suas ideias ou posições, às vezes de modo explícito, outras vezes de modo implícito.
Nos textos narrativos, essas vozes são, de modo geral, identificadas sem muita dificuldade, já que costuma haver pistas visuais: a participação do narrador vai até os dois pontos e a voz da personagem é geralmente demarcada pelo travessão:

“(…) O Comandante dissera a Teoria para voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O professor, fazendo uma careta, respondera:
— Somos dezasseis. Ficaremos catorze.
Matemática simples que resolvera a questão: era difícil conseguir-se um efetivo suficiente. De mau grado, o Comandante deu ordem de avançar. (…)” (PEPETELA, Mayombe)

Vou lançar mão da metalinguagem e usar o meu próprio texto para demonstrar o que acabei de expor. No trecho acima, há três vozes: a minha, falando com você, leitor, a do narrador de “Mayombe” e a do Professor. Entre a minha e a do narrador há dois pontos e aspas.

As aspas são empregadas nos textos expositivos ou dissertativos para marcar uma citação, que também é a presença de outra voz, a voz de outro autor que não o do presente texto, chamado para enriquecer um texto, exemplificar uma situação ou fundamentar uma ideia.

O travessão é marca característica do chamado discurso direto, aquele em que as próprias personagens se expressam no texto narrativo. As aspas podem ser empregadas exatamente da mesma maneira, embora seja um expediente mais raro nas narrações.

O discurso indireto também pode ser empregado para fazer essa demarcação das vozes. Nesse caso, saberemos qual foi a fala da personagem, mas ela será enunciada indiretamente pelo próprio narrador e não haverá pontuação indicativa. Encontraremos, em vez dos sinais, construções com orações subordinadas substantivas (O rapaz disse que estava atrasado.) ou com orações adverbiais conformativas (Segundo o ministro, as taxas de juros seriam mantidas.)

Da mesma maneira que o texto narrativo marca a fala de suas personagens, o texto dissertativo deve marcar as vozes e seus discursos. A voz do autor da dissertação é a predominante e não será marcada por sinais específicos, mas quando há a inserção de uma citação (a voz de outro autor), será necessário marcar a passagem de um para o outro por meio dos dois pontos e fazer um “isolamento” da citação por meio das aspas. E é imprescindível marcar o final da citação!!! Só assim os leitores (e o corretor da redação) poderão saber até onde vai a ideia de um e onde começa a do outro.

No caso das citações, há também o aspecto legal (principalmente nos textos acadêmicos): se não houver aspas marcando a citação ela será lida como sendo pertencente ao autor do trabalho. E não sendo palavras deste, poderá se configurar crime de plágio! (Observe, no exemplo acima, que além de marcar o começo e o fim da citação de um trecho da obra literária, eu também identifiquei a origem e a autoria).

Travessão ou aspas

(Fonte da imagem: Vitralizado)

Assim, temos ambos, o travessão e as aspas, trabalhando da mesma maneira, isolando vozes. Nos textos narrativos poderemos usar indiferentemente um ou outro, apenas deverá ser mantida a uniformidade no emprego: se optar por aspas, elas deverão ser empregadas ao longo de todo o texto e vice-versa. Já nos textos dissertativos, apenas as aspas serão empregadas para indicar essa mudança de voz.

É isso!

Até a próxima semana!

 


Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu seu mestrado. Com mais de 20 anos de experiência e responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoenem, a professora também é colunista de gramática do portal infoEnem e umas das corretoras do nosso curso de redação (clique aqui para saber mais) . Seus artigos são publicados todos os domingos. Não perca!

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