Gêneros do Discurso e a Prova de Redação do Enem

A produção de textos no contexto de uma avaliação classificatória como o Enem, infelizmente, não condiz com o que os documentos oficiais da educação brasileira afirmam em relação à escrita, algo muito contraditório, já que ambos são frutos do trabalho do mesmo ministério, o da Educação. Desde os anos 1998, quando os Parâmetros Curriculares Nacionais foram publicados e colocaram os gêneros (Gêneros do Discurso na concepção de Bakhtin e seu Círculo1) como objetos de estudo as práticas situadas de leitura e escrita, a dialogia e a interlocução ganharam grande importância em uma perspectiva interacional do ensino da língua e da linguagem.

Obviamente, como o Enem e os demais vestibulares que requerem em suas provas de redação dissertações-argumentativas, os processos seletivos que exigem a escrita de gêneros também simulam contextos de produção, mas são situações que podem ser reais, como por exemplo, colocar-se no papel de um leitor assíduo de jornais e revistas que escreve uma carta do leitor para um veículo de comunicação específico criticando uma matéria específica embasado em dados reais de uma pesquisa também real.

Em práticas situadas de escrita, o aluno sabe quem ele é como enunciador, quem é o seu interlocutor, como ele deve dirigir-se a esse interlocutor, que gênero é mais adequado para determinado objetivo e em que contexto ele deverá escrever. E nessa produção textual, as etapas de planejamento, organização, escrita e reescrita devem estar presentes a fim de se produzir um texto autônomo, ou seja, um texto que “funcione” caso seja transposto para a realidade.

Práticas situadas de escrita têm como propósito fazer com que os alunos pensem e reflitam sobre o que e como estão escrevendo e lendo e objetivam combater o ensino pautado no treinamento de modelos prontos, como é o caso do ensino da dissertação-argumentativa na escola (em uma parte considerável das instituições de ensino) e para exames, concursos e vestibulares, como o Enem.

A dissertação-argumentativa, como já dissemos inúmeras vezes, é um gênero tipicamente escolar que simula uma situação que não é próxima do real, pois tem como único objetivo avaliar, advindo de uma concepção de ensino que coloca a escrita como comunicação e expressão, a partir da década de 60, que poderá ser alcançada por meio do treino quase exaustivo de uma técnica na qual a criatividade (um critério avaliativo muito subjetivo, já que o que é criativo para um não necessariamente é para o outro) é avaliada.

proposta redação

Assim, o Enem ainda avalia, em sua proposta de redação, uma redação escolar e não uma produção de texto situada e contextualizada, contrariando documentos oficiais que pregam o contrário.

A produção e a recepção de gêneros, por meio de práticas situadas de escrita e de leitura, permitem expor o aluno a uma diversidade de temas e gêneros em práticas não só de leitura e escrita, mas também de produção e recepção oral a fim de mediar a construção de textos singulares e não pautados em modelos praticamente estáveis (diferentes dos gêneros que são, apenas, relativamente estáveis) como é o caso da dissertação-argumentativa.

Obviamente que, caso o Enem, um dia, mude o perfil de sua prova de redação para a produção de gênero, será uma mudança grande e até radical que deverá ser feita com muito cuidado, planejamento e atenção, já que tudo mudará, desde a concepção teórica e metodológica do exame, passando pelas propostas e chegando à correção, mais especificamente, aos corretores e à grade de correção propriamente dita. A recepção por parte dos candidatos também deverá ser considerada, já que será praticamente um choque imenso, em proporções nacionais.

Impossível não é; seria um grande desafio, mas um desafio não só para o Enem em si, mas para todo o ensino de língua e linguagem no Brasil.

 
1Caso os professores de Língua Portuguesa queiram ler os textos originais do téorico e seu grupo acerca dos Gêneros do Discurso, sugerimos a leitura de:

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal, 4a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997 [1979].

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucite, 1992a [1929].

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila também é colunista semanal sobre redação e uma das professoras do Programa de Correção de Redação do infoEnem. Um orgulho para nosso portal e um presente para nossos milhares de leitores! Seus artigos são publicados todas às quintas-feiras, não perca!

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2 Comentários

Redação no Enem: "Não"aos Projetos Inflexíveis - InfoEnem

[…] com reflexões acerca da possibilidade do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem – adotar os gêneros do discurso em suas propostas de redação e quais consequências essa mudança traria para o ensino de Língua […]

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Regina Teixeira

Camila,

Li seu artigo sobre “Gêneros do Discurso e a Prova de Redação do Enem” e pergunto se você vê na prova da Unicamp um modelo que tende a ser adotado por outras instituições.

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