Existe “outra alternativa” para não usar pleonasmos?

Às vezes há, às vezes não há alternativa, mas não há ‘outra alternativa’! O pleonasmo, ou redundância, apresenta duas facetas: há o chamado pleonasmo literário, aquele em que o autor opta por fazer um reforço estilístico de uma ideia. É o que fazem Alvarenga e Ranchinho, nesta hilária história de amor:

Romance de Uma Caveira

“Eram duas caveiras que se amavam
E à meia-noite se encontravam
Pelo cemitério os dois passeavam
E juras de amor então trocavam
(…)
Mas um dia chegou de pé junto
Um cadáver novo de um defunto
E a caveira por ele se apaixonou
E o caveiro antigo abandonou (…)”

(https://www.letras.mus.br/alvarenga-ranchinho/412988/ )

Diversos autores, na música ou na literatura, lançaram mão desse artifício para, estilisticamente, reforçar suas ideias:

“Chovia uma triste chuva de resignação.” (Manuel Bandeira)
“E rir meu riso e derramar meu pranto.” (Vinícius de Morais)
“Detalhes tão pequenos de nós dois.” (Roberto Carlos)
“Morrerás morte vil na mão de um forte.” (Gonçalves Dias)
“Ó mar salgado, quanto do teu sal /
São lágrimas de Portugal.” (Fernando Pessoa)
“Eu nasci, há dez mil anos atrás.” (Raul Seixas)
“Foi o que vi com meus próprios olhos.” (Antonio Calado)
“Eu canto um canto matinal.” (Guilherme de Almeida)

Além desse caso, literário, cujo emprego é estilisticamente aceito, há o pleonasmo vicioso, em que a repetição é realmente desnecessária, como ocorre nas conhecidíssimas expressões: “entrar para dentro”, “sair para fora”, “subir para cima” ou “descer para baixo”. A questão é que, em diversos casos, a ideia da repetição fica escondida na origem da palavra ou depende de um conhecimento de mundo que o falante não possui. Nessas situações, o pleonasmo ‘se aproveita’ e invade as frases!

As expressões abaixo são exemplos disso. É preciso conhecer a etimologia (a origem da palavra) ou ter domínio da gramática, para perceber a repetição em:

Outra alternativa (alter, no latim, significa ‘outro’)

  • Superávit positivo
  • Todos foram unânimes
  • Surpresa inesperada
  • Protagonista principal (proto, em grego, significa ‘primeiro’)
  • Cardume de peixes (aqui é preciso saber os substantivos coletivos)

E é preciso conhecimento das Instituições, para não empregar estas:

  • General do Exército (na Marinha e na Aeronáutica há patentes equivalentes, com outros nomes)
  • Vereador da cidade
  • Prefeitura Municipal (embora os municípios insistam em colocar esses dizeres no prédio do Paço Municipal)

Existe também outro fenômeno linguístico que, por vezes, ocorre nos textos argumentativos. Trata-se da tautologia, cuja definição, segundo o Houaiss, é “expressão que repete o mesmo conceito já emitido, ou que só desenvolve uma ideia citada, sem aclarar ou profundar sua compreensão”. Ou seja: dizer o mesmo, com outras palavras, mas sem realmente explicar a ideia. Veja alguns exemplos, para evitar que sua dissertação tenha problemas:

  • As coisas são difíceis porque não são fáceis.
  • Tudo o que é demais sobra
  • Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

E assim encerramos nosso artigo de hoje porque já chegamos ao fim! Ops!!!! Melhor dizer apenas: “E assim encerramos nosso artigo de hoje”!

Até a próxima semana!

 


Margarida Moraes, colunista de gramática do Portal infoEnem, é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 20 anos de experiência e corretora do nosso Curso de Redação Online (CLIQUE AQUI para saber mais e participar do curso!), a professora também é responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoEnem. Seus textos são publicados todos os domingos. Não perca!

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