Causal ou explicativa? Diferença entre as orações

Na análise sintática, fazemos a classificação dos termos conforme a função que exercem dentro do período. Podemos observar então a função de palavras dentro de uma oração ou a função de uma oração em relação a outra no mesmo período.

No que diz respeito à classificação das orações, encontramos dois grupos (que se subdividem): as orações coordenadas e as subordinadas.

Chamamos de coordenadas as orações que, embora estejam na mesma frase, não têm uma relação de dependência entre si, ou seja, cada uma delas apresenta todos os termos necessários para a expressão de um enunciado com sentido. Vejamos:

  • “Eu entrei no ônibus, procurei um lugar vago, sentei e comecei a ler.”

Na frase, há uma sequência de ações (e de orações) cada qual com seu sentido. Eu poderia, se quisesse, colocar um ponto final após cada oração, fazendo um trecho com 4 frases, mantendo a mesma ideia da frase anterior:

  • “Eu entrei no ônibus. Procurei um lugar vago. Sentei. Comecei a ler.”

Já no caso das orações subordinadas, existe uma relação de dependência entre elas: a oração subordinada exerce uma função sintática que está faltando na oração principal:

  • “Eu sei que a redação do Enem deve ter no máximo 30 linhas.”

Se fizermos a mesma segmentação do primeiro exemplo, a primeira oração (”Eu sei”) ficará sem o objeto direto. Existe, portanto, uma relação de dependência: a segunda oração completa a primeira.

As orações subordinadas subdividem-se ainda em substantivas, adjetivas ou adverbiais, conforme o papel que fazem, isto é, podem ter na frase a função característica de uma dessas classes de palavras.

Passando agora ao ponto que motivou este texto: no estudo das orações adverbiais, encontramos uma que exerce a função sintática de adjunto adverbial de causa. Essa oração apresenta a causa de algo que foi expresso na oração principal.

Acontece, porém, que as orações adverbiais, como foi dito, funcionam como um adjunto adverbial, que é um termo acessório, não é uma informação essencial para o sentido geral da frase. Assim, podem ser confundidas com as orações coordenadas.

No que tange às coordenadas aditivas, adversativas, conclusivas e alternativas, a identificação das conjunções específicas que apresentam esses sentidos impede confusões, mas no caso das explicativas teremos conjunções semelhantes às que iniciam as orações subordinadas adverbiais causais (porque, pois). E com isso vem a dúvida: é oração subordinada adverbial causal ou coordenada sindética explicativa?

A oração subordinada adverbial causal apresenta um motivo, uma causa da ação, do acontecimento, da ocorrência apresentada na oração principal.

Vejamos:

O rapaz jogou fora o bilhete porque não tinha acertado os números da loteria.

Nela temos a ocorrência de um fato (não acertar os números) que provoca um efeito (jogar fora o bilhete). Dessa forma, observamos que, como se trata de um fato que resulta em outro, ocorre antes daquele expresso na oração principal. Há, portanto, uma diferença temporal (para os amantes da Física, há um ‘delta t’, onde t0 = não acertar os números e t1=jogar fora o bilhete). Na prática, poderemos observar também uma diferença no emprego dos tempos verbais:

  • Causa no presente – efeito no pretérito
  • Causa no pretérito – efeito no pretérito mais que perfeito

Vejamos na música “Se acaso você chegasse”, de Lupicínio Rodrigues, a relação de ‘antes e depois’:

“Se acaso você chegasse
No meu chateau e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E de um bosque em flor (…)

O abandono ocorreu antes de a moça ir morar com o eu-lírico. E ele fala, ele faz o questionamento, por causa disso, então “porque essa dona / Já mora no meu barraco” é oração adverbial causal.

A oração coordenada explicativa também apresenta um motivo ou uma causa, mas não da ocorrência referida na oração anterior, e, sim, do motivo que leva o emissor a referir aquela ação, a fazer aquele pedido ou dar uma ordem, a dar aquele conselho ou ainda a levantar uma hipótese.

Observemos a frase:

  • Leve blusa, que vai esfriar.

Na frase, típica de mães, a ação de levar uma blusa não é a causa da ação de esfriar; é a causa do pedido para que uma blusa seja levada. Quem fala quer evitar que o outro passe frio, quer o outro leve a blusa, quer não. A oração “que vai esfriar” justifica o fato de o emissor ter dado a ordem. Assim, essas duas orações são independentes entre si e poderiam formar dois períodos:

  • Leve blusa. Vai esfriar.

Ocorre o mesmo tipo de relação na música “Gota d’água”, de Chico Buarque:

“(…)Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água (…)
(https://www.vagalume.com.br/chico-buarque/gota-dagua.html )

Não há causa e consequência entre o coração estar cheio de mágoa e a ação de deixá-lo em paz. O que há é uma justificativa para deixá-lo em paz.

Vejamos este outro caso:

  • Deve ter chovido, pois o chão está molhado.

Aqui temos uma hipótese (Deve ter chovido) e a explicação para eu ter feito essa suposição (o chão está molhado). Mas isso não garante que foi de fato chuva… pode ter sido a faxineira que lavou o chão, o jardineiro que regou o gramado e molhou o entorno, o caminhão-pipa lavando a rua…

Resumindo: será adverbial causal a oração que tiver uma relação de causa-efeito, com diferença de tempo entre as ações/fatos (causa sempre anterior ao efeito numa linha cronológica) e será coordenada explicativa uma justificativa para ordem ou a explicação para uma hipótese.

É isso!

Até a próxima semana!


Margarida Moraes é formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde também concluiu seu mestrado. Com mais de 20 anos de experiência e responsável pela resolução das apostila de Linguagens e Códigos do infoenem, a professora também é colunista de gramática do portal infoEnem e umas das corretoras do nosso curso de redação (clique aqui para saber mais) . Seus artigos são publicados todos os domingos. Não perca!

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