Análise de Redação do Vestibular Famema 2018

A Faculdade de Medicina de Marília (Famema) é uma das principais instituições particulares do interior do estado de São Paulo que oferece os cursos de Medicina e Enfermagem, sendo uma das opções dos candidatos a um dos cursos mais concorridos do país. Seu vestibular é organizado e realizado pela Fundação Vunesp.

O seu vestibular 2018 foi neste último final de semana, dia 10 de dezembro, e é um vestibular diferente dos demais, já que é composto por três provas: a prova número um apresenta oito questões discursivas distribuídas entre quatro questões de química e quatro de biologia; já a prova número dois é composta por quarenta questões objetivas sendo dez de português, dez de matemática, cinco de geografia, cinco de história , cinco de inglês e cinco de física; já a prova número três é a prova de redação, e o texto de hoje é sobre ela.

O tema da proposta da prova de redação do vestibular 2018 da Famema chamou muito a atenção de candidatos e professores, pois trata-se de um assunto que é recorrente atualmente, infelizmente: a violência sofrida pelos professores por parte dos alunos. O tema da proposta da prova de redação colocou uma pergunta para os candidatos: A violência contra o professor é consequência de regras escolares impostas aos alunos de forma autoritária ou reflexo de uma sociedade violenta?

A prova de redação do vestibular 2018 da Famema foi composta por uma coletânea de três textos. O primeiro é uma adaptação de uma matéria publicada pelo portal de notícias G1 na internet:

Uma pesquisa mundial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com mais de 100 mil professores e diretores de escola do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio (alunos de 11 a 16 anos) põe o Brasil no topo de um ranking de violência em escolas: 12,5% dos professores ouvidos no país disseram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana. Trata-se do índice mais alto entre os 34 países pesquisados. A pesquisadora Rosemeyre de Oliveira, da PUC-SP, atribui a violência nas escolas à impunidade dos estudantes. “O aluno que agride o professor sabe que vai ser aprovado. Pode ser transferido de colégio – às vezes é apenas suspenso por oito dias”, diz. “Os regimentos escolares não costumam sequer prever esse tipo de crime. Aí, quando ele ocorre, nada acontece.”

(Luiza Tenente e Vanessa Fajardo. “Brasil é #1 no ranking da violência contra professores: entenda os dados e o que se sabe sobre o tema”. g1.globo.com, 22.08.2017. Adaptado.)

O primeiro texto da coletânea traz dados resultantes de uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) com 34 países sobre violência em escolas e nesta pesquisa o Brasil é, infelizmente, o primeiro lugar, já que 12,5% dos professores ouvidos afirmaram ser vítimas de violência por parte de aluno, incluindo agressão verbal e intimidação. Além desse dado, o texto traz a opinião de uma pesquisadora a respeito do assunto que atribui esse resultado à impunidade, já que os alunos agressores não sofrem sanções severas.

O segundo texto, por sua vez, é de autoria de Maiza Santos:

A presidente-executiva da organização Todos Pela Educação, Priscila Cruz, acredita que o primeiro passo para diminuir as agressões contra os professores é reconhecer que a escola sozinha não é capaz de prevenir a violência. “Muitas vezes, essa é a referência em casa, na comunidade. É preciso trabalhar a cultura de paz na escola, motivar a solução não violenta de conflitos. Qualquer violência escolar não é um problema só da educação.” Para a coordenadora executiva da Comunidade Educativa (Cedac), Roberta Panico, esse tipo de violência é uma reprodução do que ocorre fora da escola, mas há outro tipo de agressão praticada pela escola contra o aluno, da qual pouco se fala. “A sociedade está mais violenta. Ir para uma escola suja, quebrada, não aprender o que deveria, isso também é violência.”

(Maiza Santos. “Brasil é campeão em atos violentos de alunos contra professores”. www.em.com.br, 23.08.217. Adaptado.)

No segundo texto é colocada para o aluno uma contextualização e uma ponderação da questão proposta: a violência juvenil, por parte dos alunos, é reflexo de uma violência doméstica e social e que a escola, sozinha, não consegue dar conta, apesar de haver a sugestão de existir a promoção de uma cultura de paz para resolução de conflitos dentro das instituições escolares. Ou seja, o aluno agressor reflete, talvez, uma violência sofrida em casa e na sua comunidade, já que vivemos em uma sociedade violenta. Porém, há uma ponderação: não é apenas o aluno que pratica violência contra o professor ou na escola, mas uma escola sem infraestrutura, desestimulante, suja etc. também é uma violência por parte do Estado contra os alunos.

Neste texto, o candidato é convidado a refletir sobre a seguinte questão: a violência do aluno contra o professor pode ser explicada pela violência doméstica e social e pela falta de estrutura nas escolas, mas isso justifica as agressões físicas e verbais e as ameaças? Caso justifique, como fica a situação de violência contra o professor praticada em escolas particulares, nas quais há, teoricamente, maior infraestrutura? O professor também não seria vítima do descaso do Estado em relação as escolas públicas?

Finalmente, o terceiro texto, de Kátia dos Santos Pereira, é o seguinte:

No contexto escolar, a partir do conjunto de regras que ditam os comportamentos e as relações – incluído aí o exercício da autoridade por parte do professor – desenvolvem-se sentimentos, atitudes e percepções variadas acerca da própria escola, que podem, muitas vezes, levar a desinteresse, indisciplina e atos de violência por parte dos alunos. Esses reclamam que os próprios adultos infringem as regras e que há abuso de poder por parte das instituições, que impõem regras sem margens de defesa ou possibilidades de contestação por parte dos jovens. Por outro lado, os professores sugerem que a estrutura familiar e a falta de sintonia entre escola e família em relação ao papel que desempenham na formação do aluno contribuem para a incidência de agressões. Segundo os docentes, a violência contra o professor é um reflexo da classe social a que pertencem os alunos, das comunidades em que estão inseridos, da família da qual fazem parte e das mídias a que têm acesso.

(Kátia dos Santos Pereira. “Violência contra os professores nas escolas”. www2.camara.leg.br, maio de 2016. Adaptado.)

Neste terceiro texto há a colocação da questão da relação entre professores e alunos que, nos moldes da educação atual e que ocorre na grande maioria das escolas brasileiras, o docente é um autoridade em sala de aula, o que pode acarretar, em alguns alunos, um mal comportamento que, segundo os próprios professores, é oriundo da origem familiar dos alunos, das comunidades onde eles moram e das mídias as quais têm acesso, ou seja, estudantes agressores são aqueles que têm famílias desestruturadas que não entram em contato com a escola. Por outro lado, os alunos acusam os professores e as instituições de abuso de poder e de não permitirem a sua defesa por meio de constatações.

A partir deste terceiro texto, o candidato poderia refletir acerca da mudança de valores em relação à profissão de docente e a sua valorização, já que, no passado, era uma profissão valorizada e respeitada e hoje é, infelizmente, uma carreira pouco almejada pelos jovens devido à desvalorização, inclusive salarial; não é mais uma profissão de prestígio social.

Também é possível relacionar essa mudança de valores com mudanças na sociedade e na própria escola como instituição e que, talvez, a relação entre professores e alunos deva mudar, mas para melhor.

Deste modo, o candidato ao vestibular 2018 da Famema deveria responder se a violência contra o professor é consequência das regras escolares impostas aos alunos ou se é consequência ou reflexo de uma sociedade violenta ou, quem sabe, um pouco das duas coisas, desde que o texto não fique “em cima do muro“. A proposta, como foi construída, dá base para as duas linhas de argumentação colocadas no tema.

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada e mestranda em Letras/Português pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

**Camila é colunista semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas as quintas!

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