Análise da Redação do Enem PPL 2018

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) realiza uma segunda aplicação para os participantes que, por algum motivo alheio a sua vontade, não puderam participar da primeira aplicação do exame, como por exemplo, cancelamento em algum local de prova. Esta segunda aplicação também é destinada às pessoas privadas de liberdade que queiram participar da prova, como os menores infratores apreendidos. Por isso há a sigla PPL, que significa “Pessoas Privadas de Liberdade“.

A estrutura das provas do Enem PPL é a mesma da primeira aplicação do exame. Há quem diga que as questões e a proposta de redação são mais fáceis, mas isso é uma mentira. O nível das questões e da proposta de redação é o mesmo, em nada difere: há questões de três níveis de dificuldade: fácil, razoável e difícil e a correção da redação segue os mesmos descritores e, por isso, as notas são equacionadas da mesma maneira.

Falando em redação, o tema da proposta do Enem PPL 2018 foi “Formas de organização da sociedade para o enfrentamento de problemas econômicos no Brasil“. Trata-se de um tema atual e relevante que possibilita o estabelecimento de relações com assuntos que permearam o ano de 2018, como a Reforma Trabalhista, por exemplo. Além disso, diferentemente do tema da proposta de redação da primeira aplicação do Enem 2018, este tema está situado no contexto da sociedade brasileira.

A coletânea de textos motivadores desta proposta é composta por quatro textos, dentre eles um gráfico. Vejamos cada um deles a seguir:

O primeiro texto motivador é um gráfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que poderia ser muito explorado pelo participante em sua dissertação-argumentativa, pois traz dados importantes sobre a evolução e as transformações do mercado de trabalho brasileiro entre os anos de 2012 a 2017 em relação à situação do trabalhador e dos desempregados.

Os trabalhadores com carteira de trabalho assinada eram, em 2012, 35 milhões, aumentaram um pouco em 2014, mas deste 2015 têm diminuído, chegando em 33,3 milhões em 2017. Em contrapartida, o número de autônomos e de trabalhadores informais (sem registro em carteira) aumentou nos últimos anos, passando de 20 milhões em 2012 para 23,2 milhões em 2017. Trata-se de um fenômeno muito comum: conforme o número de registros em carteira diminui, aumenta o número de autônomos e informais, impulsionado também pelo apoio ao empreendedorismo no Brasil que, por sua vez, não é sempre estimulado da melhor maneira, já que muitos negócios fecham nos primeiros cinco anos.

A categoria “ocupados sem carteira de trabalho” também aumentou com o passar do tempo analisado, assim como o número de desocupados: de 5 milhões em 2012, passou para 11,1 milhões em 2017.

O participante, no momento da prova de redação, deveria se lembrar quase que instantaneamente da Reforma Trabalhista aprovada pelo governo de Michel Temer, a qual ampliou a terceirização, sancionou o trabalho intermitente e flexibilizou as negociações entre trabalhadores e patrões, aspectos elogiados por uns e criticados por outros setores da sociedade.

Esse assunto também foi pauta das eleições de 2018, principalmente entre os presidenciáveis, já que alguns se colocaram como contrários à Reforma Trabalhista e à Reforma da Previdência (ambas estão altamente relacionadas), enquanto outros se mostraram a favor total ou parcialmente. A dualidade entre emprego e direitos foi tema de vários debates, assim como a questão do que seria privilégio, discussão que deve permanecer ao longo dos próximos anos.

Nesse sentido, além de relacionar este tema à Reforma Trabalhista, o candidato poderia fazer sua contextualização histórica estabelecendo relações com a criação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. Os críticos da Reforma Trabalhista argumentam que ela tira direitos adquiridos e garantidos pelos trabalhadores por meio da CLT, como férias, insalubridade etc., visando agora muito mais o lado dos patrões do que da classe trabalhadora.

A mudança de categoria de trabalho, em uma crise de desemprego, é o foco desta proposta de redação, pois os demais textos motivadores abordam esta temática ao mostrarem alternativas criadas pelos próprios trabalhadores.

O segundo texto motivador traz para o participante a existência de bancos comunitários que usam outras moedas, e não o Real, em diversas comunidades brasileiras, que movimentam mais de R$ 6 milhões por ano. Trata-se de uma alternativa aos bancos tradicionais, nos quais precisa atender alguns requisitos para se ter contas e investimentos, por exemplo.

Alternativas também surgem em comunidades indígenas, como mostra o terceiro texto motivador, que cita a comercialização de sementes florestais entre grupos indígenas brasileiros, mostrando que a crise também chega até eles. Assim, o candidato poderia escolher entre abordar os trabalhadores dos centros urbanos, das zonas rurais e das comunidades indígenas, já que há esta margem por meio da coletânea textual.

As cooperativas, já existentes antes da crise, são o foco do quarto e último texto motivador da coletânea. Nestas organizações, os trabalhadores são também proprietários e, assim, assumem o bônus e o ônus, assumindo os lucros e os possíveis riscos e prejuízos.

Até a próxima semana!

 


*CAMILA DALLA POZZA PEREIRA é graduada em Letras/Português e mestra em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Atualmente trabalha na área da Educação exercendo funções relacionadas ao ensino de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Foi corretora de redação em importantes universidades públicas e do Curso Online do infoEnem. Além disso, também participou de avaliações e produções de vários materiais didáticos, inclusive prestando serviço ao Ministério da Educação (MEC).

 
**Camila é colunista semanal sobre redação do nosso portal. Seus textos são publicados todas as quintas!

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